quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

A droga do amor!

Não, não é a tão procurada fórmula mágica, nem se iluda, aqui não se trata de obtê-lo, mas sim de compreendê-lo.
Hoje criei uma hipótese, o amor é uma droga. Você verá, faz todo o sentido, foi como uma epifania que esse pensamento foi concebido. É uma droga pesada, dessas que viciam ao primeiro contato, inebria, entorpece, alucina, faz delirar. São características clássicas, não há o que duvidar. Para conquistar os corações inadvertidos, aparece gratuito, tudo planejado para parecer fortuito aos pobres a quem lhe são submetidos. Ora, para quem já foi vítima, ou melhor, usuário, bem já se sabe que mais tarde o preço cobrado é caro. Depois de um romance fatal, uma overdose daquelas que fazem o coração parar, fica-se sem nada, vende-se até a última gota de orgulho por uma dose caprichada. É mesmo muito potente, não há opióide que gere a sensação de um amor puro, não vá comparar, nem tente. E além dos efeitos adversos, ele ainda fica latente. Pode gerar todos esses sintomas falados antes até muitos anos à frente. É muito perigoso o amor, e talvez o pior sejam as crises de abstinência. Elas são acompanhadas de impaciência, lágrimas incontinentes, depressão, falta de apetite, pensamento fixo, desleixo e a pior de todas, a dor no coração. Em relação ao ex-usuário, se é que se pode chamar assim, afinal quem já foi viciado nunca estará limpo, a vontade de mais uma dose nunca terá fim.
O mais incrível e o que faz dele mais perspicaz, é que não se encontra fácil, parece, os mecanismos ainda não estão claros, que é ele quem escolhe a vítima e faz dele seu eterno escravo. Não consegui desvendar como consegue surgir assim de repente, só sei que precisa de pelo menos dois para se fazer vigente. Há muita coisa ainda por saber, muitas descobertas de reações que pode causar já foram realizadas, mas nada tão óbvio quanto a da pessoa que vos fala. Eu não quero prêmios em agradecimento, quero logo desvendar tudo sobre o amor para compreender o sofrimento. É, eu fui, sou uma usuária.
Assim, segue minha pesquisa em busca de uma, quem sabe, porção contrária. Algo que apague da memória o efeito avassalador que causou na minha história. Uma vez produzido o antídoto, que se possa levar uma vida não plena, mas sem tanta dor. Contento-me com pouco porque sei que só se encontra tal analgésico e tal plenitude na própria droga, o amor.

Raissa Campos.


Ferida sem corte cicatriza?

Qual o remédio? Qual o antídoto que a dor ameniza?

Estão abertos os epitélios da alma

sangrando lágrimas em meu rosto.

Dói e eu não sei de onde vem

apenas dor, sem trauma exposto



É o sentimento inflamado

latejando recordações afiadas

elas perfuram sem deixar rastro

provocam feridas difíceis de curar

fáceis de sentir.



Já sei que cicatrizam

e como toda cicatriz, fica a mácula

uma recordação sólida.

Pode representar superação

ou uma eterna mágoa.

Demoram a fechar.



Dizem que as palavras são auxílio

Quais serão as corretas?

Quais trazem consigo o dom do alívio?

Sozinhas não servem.

Hão de ser doses combinadas de palavras e bastante tempo.

Só assim essas feridas são encerradas.

É a sabia parcimônia permitindo ida embora do passado

e a alma cicatrizada, nova vida.



Raissa Campos/Iane Caroline

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

As mãos do asfalto

Mãos pedintes em meio ao asfalto
Acusam-me da pobreza, me capturam de assalto
Mãos pedintes em meio ao asfalto
São jovens, mas já envelhecidas aqui do alto
As mãos pedintes lá do asfalto
São sujas, são trêmulas e se abrem num gesto vago
As mãos da realidade, essas da cor do asfalto
Apontam-me meus ignóbeis desejos fúteis, me frustram
As mãos que se erguem e me pedem qualquer coisa
Atingem-me profunda e deliberadamente aonde a compaixão anda ignota
As mãos já são costumeiras
A cada esquina me aparecem erguidas, me pareciam interesseiras
Mãos de quem?
A indigência flagela a dignidade
Mãos para quem?
Desconhecidos, superiores, blindados sob o ronco dos motores.
As mãos eram ele
Não me lembro do rosto, me marcaram as mãos
As mãos do gesto universal
Mãos que nunca são vistas e se repetem num movimento automático
Continuam pedintes em meio ao asfalto.

Raissa Campos.