domingo, 26 de agosto de 2012

Distâncias


E quando for embora, vai com aquele olhar...
Aquele de vontade combatida
Desejo reprimido
Imã forçosamente separado da matriz
As pernas teimando em prosseguir e todo o resto querendo ficar

E quando for embora, fico eu com meu olhar...
Perdido, ainda olhando, agora, para estranhos.
Ansiando por uma volta
Desejando buscá-lo ou ir-se contigo
Imã forçosamente separado da matriz
As pernas teimando em não obedecer à decisão de dar as costas

E quando voltas
Os olhares se procuram como imãs
E as pernas querem apressar obedecendo à vontade
Então é reencontro, é sede começando a ser saciada.
É desejo e são sorrisos
Quem sabe até algumas lágrimas
Já bate o medo da partida, logo ali na chegada.

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Almir


Existem pessoas que não passam invisíveis pela vida. Elas marcam a vida de todos a sua volta, até daqueles que não esperavam que ela estivesse tão enraizada em seus pensamentos. São pessoas diferentes, um conselho aqui, uma conversa ali, muitas risadas e cá nos deixa com essa saudade. Esse tipo de pessoa surge em nossas vidas e passa a ser um querer estar perto, tem uma mania feia de ir embora assim de repente, muitas vezes sem nem dar adeus, fica a lembrança do último sorriso. Ah, as lembranças...ficam as memórias gostosas, aquele dia em que ele fez isso, aquela piada que todo mundo ri fácil até hoje. Engraçado, até hoje nos gera risadas, elas vem acompanhadas que um suspiro intrometido, mas não deixam de ser risadas. Que saudade. Há de confortar, aos que acreditam, que está num lugar melhor. Acho mesmo que está aqui, não sei como, talvez naquilo que chamamos de coincidências da vida, acaso. Fica a saudade do sorriso bonachão, da pessoa inteligente e amiga. Muitos amigos, não por coleção, mas por conquista. Apesar da partida, já surgem os novos, carregando o seu nome, quem sabe um pouco dele. Fica a vontade, vão-se as lágrimas, nasce um sentimento de compreensão, haveria de ser assim. Há de ser então alegria, por todos os momentos que podemos compartilhar de sua companhia e por sabermos que nunca o esqueceremos, ele ainda está em nós. Feliz aniversário.

segunda-feira, 9 de julho de 2012

Às avós


                 Eis que nada se fez mais presente em meus pensamentos hoje do que a tentativa de lembranças das minhas avós. Haja vista o falecimento da avó de uns amigos, foram as mortes das minhas entes queridas que não me deixaram em paz. Há sim em mim essa carência daquele amor de avó, aquele que é pura admiração, bondoso e incondicional. Eu, órfã de avós, tenho um sentimento especial pelas avós dos outros, não é por acaso que cativo um sentimento vivo até por aquelas que há muito não vejo. Acho até que as avós dos outros, no alto de sua sabedoria, sentem em mim essa ausência, e aparentemente me dão uma atenção especial. Talvez eu queira ser especial para elas, a netinha que vem passar as férias, com quem almoçam no domingo, com quem relembram os tempos de outrora.  Lembro-me saudosa das lágrimas que a minha avó paterna sempre derramava quando íamos embora, do abraço feliz de quando ainda criança me jogava nos braços frágeis de avó materna.  Quão sortudos são os que têm as suas avós...as minhas são só lembrança, aquele cheiro de roupa passada, cheiro bom que me dá um paz interior. Finalizo um pouco mais aliviada, nada como uma dose terapêutica de exposição. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

É a seca assolando o nordeste


É seca assolando o nordeste. Matando primeiro de fome, depois de sede. Primeiro o gado, depois a criança. É a seca que gera além do solo erodido, olhares perdidos. Aquele semblante de abandono, desamparo, desesperança. A tristeza do caboclo que não vê saída, nada vê além da plantação perdida, do açude seco, da imagem do adeus. É quando a família abandona o pouco que tem, êxodo do lar, êxodo do mundo conhecido, fuga para uma realidade que pode livrar da morte, mas não livra da marginalização. Um adeus triste, de quem vai cantando no coração a esperança de Luiz Gonzaga, de que quando o verde dos olhos da amada se espalharem na plantação, haverão de regressar e viver novamente ali no temor de uma nova seca, mas tendo um prazer que vem da essência nos tempos de fartura. 
É a vida determinada sazonalmente, não como os que faturam com safras recorde, para esses que não tem quase nada, a seca pode ser sim um algoz cruel. 
É a seca assolando o nordeste. São os políticos lucrando em programas de governo fantasmas, são latifundiários lucrando com o auxílio que deveria ajudar mais os pobres, é a desigualdade não só social, mas cultural, a desigualdade na educação de mãos dadas com a seca expulsando, maltratando, matando.

domingo, 13 de maio de 2012

Miséria Absoluta

É a vida na miséria absoluta
Onde não há dignidade
A fome cruel que dói e alucina
É a não educação
A desinformação
Falta de tudo, muito de nada
É a miséria absoluta, assolando aqui ao lado
Assaltando capacidades
Parasitando mentes e estômagos
É pobreza que irracionaliza
Onde humanos e outros animais são iguais
Compartilham água, alimento, a si.
A miséria absoluta parece doença endêmica, insidiosa aqui pelos trópicos
Acentuando-se ao nos aproximarmos da linha do Equador
Ela é como um algoz implacável
Fere, tortura e mata.
Quanto tempo ainda vedarão os olhos para essa realidade?
Quando ela se aproximar demais, pode ser tarde
Se não há dignidade na miséria absoluta,
Na abundância absoluta também não há compaixão.

Raissa Campos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Margarida


            Perto do semáforo do Hospital Universitário, estava Margarida. Vou chamá-la assim para dar mais identidade a esse ser que nada tem de fictício. Tinha a pele negra, cabelos rebeldes queimados do sol, não aparentava ter muita idade, apesar de uma pele sofrida, marcada pela vida, marcas que deveriam ser mais profundas do que aquelas que pude enxergar.  
       Margarida estava visivelmente alterada. Fazia movimentos desconexos, olhos fixos no nada, andava sem rumo. Estava num mundo diferente, de cores psicodélicas, de sons absurdos, fruto do provável consumo de drogas. Atitudes como essas não eram incomuns nos frequentadores daquele semáforo. Já não me surpreendiam, eu apenas observava mais uma vítima. Não culpo Margarida pela sua fraqueza, há de ser muito doloroso viver aquele tipo de realidade e deve ser ainda mais render-se ao vício para lidar com ela. Talvez as cores vivas e aquela alegria, mesmo que falsa, só existissem quando ela alimentava o vício. O mundo monocromático em cinza de seus dias de fome, frio e abandono se esvaía naqueles momentos de ilusão.
        Pobre Margarida. De que lhe vale a vida? Quem sabe até vende seu corpo. E o que é dela realmente? Apenas a consciência da monocromia dos dias cinzas.
        Adeus Margarida. Espero vê-la novamente e em tempos melhores, pena que acredito que isso não vá acontecer.
               
         

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ingenuidade?


Outro dia, alguém me dizia que na vida a gente aprende a esperar o pior das pessoas, que inocentemente queremos acreditar que elas não são capazes de agir de má fé, até que isso acontece. É a pura verdade, posso apostar que a maioria das pessoas já sofreu esse tipo decepção por ser ingênuo. Isso não é só naquilo que envolve dinheiro, até em se tratando de sentimentos temos avaliar bem a quem estamos oferecendo a nossa paz.
As pessoas nos decepcionam, isso é fato. É o político que só age por interesses próprios, o mecânico que apenas troca a peça de lugar, o colega que não divulga informações importantes, a esposa que mente. É óbvio também que não se deve entrar num delírio persecutório, que todos estão contra você. Acontece que as pessoas não são perfeitas e algumas além da imperfeição natural, subjugam a moral e a ética. Quem vos fala não é um paladino destes conceitos, mas ao menos preza muito por eles.
A questão é em que grupo estamos? Vale ainda acreditar que o dinheiro pode comprar/gerar conforto, beleza, poder, mas a boa índole, essa é genuína, não se curva ao vil metal. Ingenuidade?

Raissa Campos.