segunda-feira, 9 de julho de 2012

Às avós


                 Eis que nada se fez mais presente em meus pensamentos hoje do que a tentativa de lembranças das minhas avós. Haja vista o falecimento da avó de uns amigos, foram as mortes das minhas entes queridas que não me deixaram em paz. Há sim em mim essa carência daquele amor de avó, aquele que é pura admiração, bondoso e incondicional. Eu, órfã de avós, tenho um sentimento especial pelas avós dos outros, não é por acaso que cativo um sentimento vivo até por aquelas que há muito não vejo. Acho até que as avós dos outros, no alto de sua sabedoria, sentem em mim essa ausência, e aparentemente me dão uma atenção especial. Talvez eu queira ser especial para elas, a netinha que vem passar as férias, com quem almoçam no domingo, com quem relembram os tempos de outrora.  Lembro-me saudosa das lágrimas que a minha avó paterna sempre derramava quando íamos embora, do abraço feliz de quando ainda criança me jogava nos braços frágeis de avó materna.  Quão sortudos são os que têm as suas avós...as minhas são só lembrança, aquele cheiro de roupa passada, cheiro bom que me dá um paz interior. Finalizo um pouco mais aliviada, nada como uma dose terapêutica de exposição. 

terça-feira, 22 de maio de 2012

É a seca assolando o nordeste


É seca assolando o nordeste. Matando primeiro de fome, depois de sede. Primeiro o gado, depois a criança. É a seca que gera além do solo erodido, olhares perdidos. Aquele semblante de abandono, desamparo, desesperança. A tristeza do caboclo que não vê saída, nada vê além da plantação perdida, do açude seco, da imagem do adeus. É quando a família abandona o pouco que tem, êxodo do lar, êxodo do mundo conhecido, fuga para uma realidade que pode livrar da morte, mas não livra da marginalização. Um adeus triste, de quem vai cantando no coração a esperança de Luiz Gonzaga, de que quando o verde dos olhos da amada se espalharem na plantação, haverão de regressar e viver novamente ali no temor de uma nova seca, mas tendo um prazer que vem da essência nos tempos de fartura. 
É a vida determinada sazonalmente, não como os que faturam com safras recorde, para esses que não tem quase nada, a seca pode ser sim um algoz cruel. 
É a seca assolando o nordeste. São os políticos lucrando em programas de governo fantasmas, são latifundiários lucrando com o auxílio que deveria ajudar mais os pobres, é a desigualdade não só social, mas cultural, a desigualdade na educação de mãos dadas com a seca expulsando, maltratando, matando.

domingo, 13 de maio de 2012

Miséria Absoluta

É a vida na miséria absoluta
Onde não há dignidade
A fome cruel que dói e alucina
É a não educação
A desinformação
Falta de tudo, muito de nada
É a miséria absoluta, assolando aqui ao lado
Assaltando capacidades
Parasitando mentes e estômagos
É pobreza que irracionaliza
Onde humanos e outros animais são iguais
Compartilham água, alimento, a si.
A miséria absoluta parece doença endêmica, insidiosa aqui pelos trópicos
Acentuando-se ao nos aproximarmos da linha do Equador
Ela é como um algoz implacável
Fere, tortura e mata.
Quanto tempo ainda vedarão os olhos para essa realidade?
Quando ela se aproximar demais, pode ser tarde
Se não há dignidade na miséria absoluta,
Na abundância absoluta também não há compaixão.

Raissa Campos.

quinta-feira, 22 de março de 2012

Margarida


            Perto do semáforo do Hospital Universitário, estava Margarida. Vou chamá-la assim para dar mais identidade a esse ser que nada tem de fictício. Tinha a pele negra, cabelos rebeldes queimados do sol, não aparentava ter muita idade, apesar de uma pele sofrida, marcada pela vida, marcas que deveriam ser mais profundas do que aquelas que pude enxergar.  
       Margarida estava visivelmente alterada. Fazia movimentos desconexos, olhos fixos no nada, andava sem rumo. Estava num mundo diferente, de cores psicodélicas, de sons absurdos, fruto do provável consumo de drogas. Atitudes como essas não eram incomuns nos frequentadores daquele semáforo. Já não me surpreendiam, eu apenas observava mais uma vítima. Não culpo Margarida pela sua fraqueza, há de ser muito doloroso viver aquele tipo de realidade e deve ser ainda mais render-se ao vício para lidar com ela. Talvez as cores vivas e aquela alegria, mesmo que falsa, só existissem quando ela alimentava o vício. O mundo monocromático em cinza de seus dias de fome, frio e abandono se esvaía naqueles momentos de ilusão.
        Pobre Margarida. De que lhe vale a vida? Quem sabe até vende seu corpo. E o que é dela realmente? Apenas a consciência da monocromia dos dias cinzas.
        Adeus Margarida. Espero vê-la novamente e em tempos melhores, pena que acredito que isso não vá acontecer.
               
         

quinta-feira, 1 de março de 2012

Ingenuidade?


Outro dia, alguém me dizia que na vida a gente aprende a esperar o pior das pessoas, que inocentemente queremos acreditar que elas não são capazes de agir de má fé, até que isso acontece. É a pura verdade, posso apostar que a maioria das pessoas já sofreu esse tipo decepção por ser ingênuo. Isso não é só naquilo que envolve dinheiro, até em se tratando de sentimentos temos avaliar bem a quem estamos oferecendo a nossa paz.
As pessoas nos decepcionam, isso é fato. É o político que só age por interesses próprios, o mecânico que apenas troca a peça de lugar, o colega que não divulga informações importantes, a esposa que mente. É óbvio também que não se deve entrar num delírio persecutório, que todos estão contra você. Acontece que as pessoas não são perfeitas e algumas além da imperfeição natural, subjugam a moral e a ética. Quem vos fala não é um paladino destes conceitos, mas ao menos preza muito por eles.
A questão é em que grupo estamos? Vale ainda acreditar que o dinheiro pode comprar/gerar conforto, beleza, poder, mas a boa índole, essa é genuína, não se curva ao vil metal. Ingenuidade?

Raissa Campos.

quinta-feira, 23 de fevereiro de 2012

Frases ImperFeitas


           
                Você não é tudo para mim, mas é boa parte da minha felicidade. Não fique triste pela falta de um discurso piegas, mais vale a verdade do que frases feitas sem essência. Eu não sou louca por você, mas às vezes penso estar a um passo da neurose quando me pego pensando em nada mais do que no seu sorriso ao longo de todo o dia.  Obviamente que vivo sem você, assim o fiz até o dia que o conheci, mas com certeza os dias de minha vida não teriam o mesmo colorido, o seu colorido. Eu não sei se o meu amor é infinito, mas ele não se deixa mensurar, então considero que seja imensurável por mim. Também não sei se os nossos destinos estavam traçados nas estrelas, mas sei que meu pensamento se destina a você toda vez que olho para as estrelas. Você certamente não é o ar que eu respiro, o que preenche meus pulmões não tem o seu toque, o seu cheiro, a sua textura macia. Não pense que eu não sou romântica, na verdade tanto o sou que acredito no que é real. Não és meu caminho, nem o meu amanhã, mas espero tê-lo ao meu lado em cada pedaço de tempo ou de estrada que a vida me reservar. Posso até ser sua de corpo e alma, mas não a sou em pensamentos, é bom assim, que a liberdade nos faz desejar e ter vontade de ter companhia, a tua companhia. Que tudo isso que sinto seja para sempre, para sempre que houver cumplicidade e verdade.  Acho que o sentimento a que lhe dedico é a maior prova, silenciosa, ter a coragem de acreditar e se deixar vulnerável é melhor do que qualquer palavra.

Raissa Campos.

terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Riso, simples riso

Riso, simples riso
Somente riso
Assim gratuito, gostoso.
Sem mais, é a vida que é boa?
Uma memória engraçada?
Não importa, quando encaro esse teu sorriso
Há em mim uma saudade dos tempos bons
Quando tudo era fácil, os olhares mais ingênuos.
Riso, simples riso.
É tão rico de você que é o filme que levo em minha mente
Ele tem um quê de novidade, mesmo resultando de momentos antigos
Não precisa de mais nada esse teu sorriso
Basta ele para começar o dia
Basta ele para terminá-lo.
Risos, ah!, os sons do teus risos...
São como alarmes a despertar os meus
Contagiam a face tensa
Serão eternos na minha eternidade
Que sejam devotados à vida
E que ela se torne tão doce quanto eles.
Os tempos ruins são curtos e eles, os risos, são de fonte sem fim.
O teu riso, simples riso.
É o meu dia, todos os dias.

Raissa Campos.